E Quando as Crianças se Recusam a Fazer as Tarefas Escolares?

Para muitas famílias as tarefas escolares já o eram e são, ainda mais agora, uma das maiores fontes de conflito e stress. Neste momento, em que os pais se sentem mais responsáveis pelo desempenho escolar dos filhos, é especialmente desafiador ter de gerir e lidar com uma criança que recusa fazer as tarefas escolares. Ainda para mais que os pais se encontram num difícil equilíbrio entre o teletrabalho, a telescola, os cuidados aos filhos, o autocuidado e a gestão dos medos e preocupações.

Dependendo da criança e do ambiente, as recusas às tarefas escolares podem manifestar-se de várias formas. Algumas crianças poderão colocar a cabeça na mesa e recusar-se a iniciar, apesar do incentivo e estímulo ou até iniciar e rapidamente dispersar-se para outros interesses. Outras poderão simplesmente ignorar as instruções e continuar a fazer o que desejam, seja colorir, ler ou qualquer outra atividade em que estejam envolvidas. Algumas poderão exigir a presença constante de um adulto para avançar com qualquer tarefa, por muito simples que ela pareça ser. Ou, ainda, olhar diretamente para os pais e dizer “Eu não vou fazer isto!”, ao que se podem seguir gritos de fúria e uma escalada de agressividade. Todos estes comportamentos configuram recusas, que assumem a forma de resistência, evitamento, distração, negociação ou um colapso total.

Uma das explicações para estas recusas poderá estar relacionada com a perceção de competência da própria criança e a possível desadequação da proposta escolar relativamente ao nível do seu saber fazer. Esta medida de desadequação pode também ter a ver com a dificuldade em descodificar o que é pedido ou de regular a atenção durante o tempo necessário para a realização da tarefa. Outras situações como a regulação da atenção, do comportamento e das emoções também estarão na base da luta que algumas crianças travam diariamente para realizar as tarefas escolares. Neste contexto de ensino à distância, estar concentrado em casa poderá configurar um desafio adicional. Quando estamos em casa, o nosso cérebro está em modo “tempo livre”, a nossa casa está cheia de distrações e a criança possivelmente não vê a casa como o local para realizar tarefas da escola.

Independentemente do motivo que leva a criança a recusar trabalhar, a primeira coisa a fazer é reconhecer que a criança está com dificuldade em adaptar-se aquela exigência. Acredite, seria mais fácil para o seu filho cumprir com o que lhe está a ser pedido, mas isso pode ser extremamente difícil se num determinado momento lhe faltam as competências e estratégias necessárias para o fazer! Adiar, pode ser uma forma de evitar uma experiência que se antecipa como muito negativa. Quando o adulto passa a olhar para a criança como estando motivada para superar aquela dificuldade e, desta forma, se afasta de atribuições de preguiça ou manipulação, melhora a sua abordagem ao problema.

Una forças com o seu filho para que juntos possam encontrar soluções! Experimente perguntar à criança se ela identifica a dificuldade que está a sentir. Procure usar um estilo de comunicação claro, calmo e empático, que incentive a criança a envolver-se nesta busca de causas e soluções. Disponibilize-se para ouvir o seu filho com toda a sua atenção e, no fim, para acreditar e aceitar a sua perceção da dificuldade. Assim que consigam identificar possíveis causas para a recusa, trabalhem em conjunto para encontrar soluções. Lembre-se que estratégias diferentes resultarão de forma diferente, conforme a família que as aplica e que encontrar o que resulta para ambos, adulto e criança, será sempre um trabalho de tentativa e erro.

Apesar disso, é importante não substituir o seu filho, mesmo que isso implique a possibilidade de o ver falhar. Estar disponível para o ajudar e apoiar não deve significar que este não tenha de realizar o seu trabalho de forma autónoma. Contudo, lidar com os seus sentimentos e os do seu filho, relativamente à possibilidade de incumprimento das tarefas escolares, pode ser extremamente angustiante. Assim, procure normalizar, seja empático e gentil. Mantenha presente que nesta situação, sem precedentes, muitos estarão a passar pelas mesmas dificuldades. Lembre-se que a si cabe-lhe ser pai e não professor! Nesse sentido, incentive o seu filho a procurar o professor, que certamente poderá contribuir para a gestão eficaz destes problemas e ajudar a criança a encontrar o seu caminho. Não temos todos que caminhar à mesma velocidade, nem pelos mesmos caminhos, mas o seu filho deve sentir confiança de que o professor, os colegas e os pais estão disponíveis para o ajudar.  

Nestes tempos difíceis e perante o desgaste imposto por novas tarefas, termino salientando a importância de os pais reservarem tempo para si próprios e criarem momentos especiais de ligação com os filhos. Sentirem-se bem, calmos e ligados afetivamente, será um grande facilitador da cooperação, comunicação e entendimento entre todos.

Vilma Figueiras, Psicóloga

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