Impossível viver sem afeto!

Mais relevante que as oscilações no grau de ansiedade que todos vamos tendo com os avanços e recuos relativamente ao número de infetados de Covid, está a inexistência de um horizonte temporal para o fim ou controlo da pandemia.

Não existir uma resposta para a pergunta: “Quando vou poder abraçar os meus pais/familiares/amigos?” está a perigar o bem estar e saúde mental das pessoas, pois o “regresso à normalidade possível” não satisfaz totalmente as necessidades inerentemente humanas e o esforço para continuar a subsistir, desta forma, é muito grande.

A tecnologia coloca ao nosso dispor muitas formas de comunicação que nos permitem expressar afeto. No entanto, este é feito à distância, sem o toque físico que está demais comprovado como essencial para o bem-estar e conforto psicológico.

Múltiplos estudos ao longo de décadas de investigação nesta área (mesmo realizados em animais) mostram os efeitos lesivos e muitas vezes irreversíveis, (principalmente em fases precoces da vida, mas não só, também em situações de hospitalização prolongada) quando existe a privação de estímulo interpessoal e afeto.

Apesar de relegado para segundo plano, as relações interpessoais afetivas, principalmente as referentes a figuras de vinculação (Bowlby considera até que as mesmas permanecem semelhantes na sua natureza em crianças ou adultos, neste último caso referentes aos pares ou companheiros românticos), não são menos importantes que a satisfação de qualquer outra necessidade puramente fisiológica.

A inexistência de demostrações de afeto e proximidade física, traduz-se diretamente na saúde fragilizando o sistema imunitário, expondo-nos mais facilmente à doença mas potenciam também um acréscimo de situações de ansiedade e depressão dificultando o lidar com a adversidade de forma adaptativa, podendo igualmente, em situações extremas e prolongadas resultar em apatia, anedonia, desesperança, passividade e mesmo morte.

Boff (1999) refere que “Tudo o que existe, vive e precisa de ser cuidado para continuar a existir. Uma planta, uma criança, um idoso, o planeta Terra. Tudo o que vive precisa de ser alimentado”. O afeto, é portanto, vital! Como tal, fica aqui o alerta para que, exista um equilíbrio entre a observância das normas de segurança, relativamente ao Covid e a nossa essência humana, bem patente na expressão de Jonhn Donne que se tornou comum “ninguém é uma ilha”.

Cláudia Soares, Psicóloga e Coach

One Comment on “Impossível viver sem afeto!”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *